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domingo, 23 de outubro de 2011

Vulnerável proteção


É normal temer uma dádiva dos céus? Temer somente em ouvir tal palavra pelo simples fato de não ter motivos para confiar nas pessoas?
A entrega é retardada enquanto puder, quem sabe assim também retardo meu sofrimento. Porque certeza da felicidade não temos, mas a dor está sempre garantida no final.
A descrença é que me move. no caráter dúbio das pessoas, em seu modo usurpador de sugar tudo o que há de bom em você, dar-te memórias divertidas para chorá-las depois, em um lapso esquecer-se de você, como se sua passagem na vida dela tivesse sido irrelevante. Porque qualquer pessoa é substituível e nos enganamos muito pensando que somos únicos. Existem muitos "únicos" em nossas vidas e machucar os outros tornou-se tão banal que fazê-lo virou rotina.
Mas esse nosso coração tão malditamente humano adora fazer brincadeiras para assim, errarmos e consequentemente – é o esperado – não soframos novamente, aquela coisa chamada esperança que nos faz acreditar que o "para sempre" existe e nos doamos aos sentimentos mais contraditórios e seguindo o ciclo, chega uma hora que ser posto de lado quando mais se espera daquele relacionamento cansa seu coração e mente e como proteção, fechar-se para esse mundo que só muda para pior é a única saída, o único modo que se vê para tentar apaziguar a dor latente que nos consome.

sábado, 22 de outubro de 2011

Escapar


Abriu os olhos escuros tentando se acostumar com a claridade nem tão bem-vinda no quarto grande que se torna pequeno ocupado pelas lembranças do dono espalhadas em todos os cantos.

Mais acostumado saiu da cama sentindo o frio do piso de madeira mais reforçado pelo inverno castigante e seguiu o cheiro doce daquelas tão adoradas panquecas. Desceu as escadas correndo, passou pela sala intacta e parou na  porta da cozinha tão aconchegante há algum tempo.

Chegou a ouvir as risadas calorosas e os cumprimentos verdadeiros a mesa do café. Mergulhado em recordações foi interrompido pelo tic-tac do relógio e deixou o peso da realidade cair-lhe sobre os ombros.
Voltou a abrir os olhos vendo a diferença do que deixou escapar por egoísmo: a cozinha vazia e escura, sem ninguém. Encostou-se na porta odiando-se por ter caído novamente naquelas alucinações assombrosas que teimavam em acompanhá-lo mesmo depois de tanto tempo.
Já no quarto plenamente escuro e sentou na cama desarrumada. Não precisava de luz, já decorara o caminho para se libertar daquela realidade massacrante e solitária. Depois emergiu no sono eterno.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Mergulho


O vento acariciava rudemente os poucos fios do cabelo dela que serpenteavam fora da trança puxada, como ditava as regras do colégio onde estudava.
Naqueles intervalos entre as cansativas aulas e as pessoas ainda menos suportáveis com quem era obrigada a passar a maior parte do tempo, era-lhe solitário e silencioso, uma extensão de sua casa, suponho.
Entrara ali por uma vontade alheia de quem a criava, um fetiche macabro de seus pais; mais uma cena do teatro que inesgotados mostravam á tosca plateia da cidade.

Retornou à sala, cumpriu com o ritual e tentou se concentrar naquelas palavras que tentavam lhe dizer algo, mas não entendia, não afastava aqueles pensamentos que agora, pareciam tão apaziguadores...

Esses intrusos apareceram logo depois de mais uma das discussões que os pais, exigindo perfeição de sua boneca, tiveram com ela. Isso volta e meia acontecia, mas nunca chegara a esse extremo.
"Mas por que se culpar? A vida é uma só e precisamos arriscar nem que seja uma vez" quando leu tal frase na revista de uma das colegas que liam escondidas , decidiu parar de se assustar com a realidade que a cercava; faria algo por vontade própria, nem que fosse pela última vez.
Naquela sexta-feira vestira farda com ajuda da orgulhosa mãe, que sempre indagava o motivo de sua permanente inexpressão.
Hoje a senhora irá ver-me diferente mãe respondeu já animando a senhora que no final da manhã iria lá ao colégio ver mais uma de suas formaturas semanais.
Já tinha arquitetado tudo, quando na extraclasse ajudou um soldado a pegar a bola de vôlei no telhado do segundo pavilhão, agora era só mergulhar.
Pedira para a professora para ir ao banheiro "Necessidades de mulher" murmurou baixinho saindo com uma bolinha. Colocou os pés no corredor e tirou de lá uma câmera, e começou a gravar sorridentemente. Entrou no banheiro, gravou-se no espelho, e até sorriu. Saiu de novo e voltou ao segundo pavilhão, mas cortou caminho e abriu o portão que dava para o vasto pátio.
Respirou fundo, tirou a almofadinha do bolso da grossa jaqueta, colocou envolta da câmera e atirou no telhado, não a deixaria lá sozinha, então subiu o pé pequeno na bancada da janela, estabilizou-se e escalou nas bordas das janelas até o telhado.
Sorriu satisfeita, retomou a câmera e admirada gravou tudo lá de cima, a paisagem de tirar o fôlego, perfeita. Fitou o relógio, dali a um minuto daria o sinal do intervalo e todos estariam lá embaixo, e ela também.
"Olá" sorriu para a câmera em punho "Só queria dizer adeus... A esse cansaço e pressão. Acho que agora vou poder descansar" suspirou mirando o aparelho para a vista lá de baixo.
O sinal soou seus pés já estavam firmes para o impulso, então só correu e...



Os alunos saíam aliviados para tomar um ar fresco, indo reforçar o estômago para os 45 minutos em pé que os esperava no final da manhã daquele dia manhoso do sol que ora se escondia e se revelava.
E BUM! O som seco de um corpo sem reservas de encontro ao chão se fez presente, paralisando a todos, a fome indo embora dando lugar ao espanto, ao horror, à incredulidade.
Soldados, superiores e os professores próximos foram tentar acudir, mas o corpo jazia todo quebrado, envolto por sangue, estranhamente dobrado, com ossos fora do lugar, mas a mão direita segurava firme a câmera ainda gravando.
Chamaram a mãe da aluna Cecília e ela viu realmente outra expressão no rosto da menina, um alívio no rosto que estava levemente grudado ao cimento.




 

domingo, 26 de setembro de 2010

Acorde para a Dor

"Aaaahhh!" o grito de Robben ecoou pela sala. Do alto de onde estava pendurado por correntes que prendiam suas pernas e costas perfuradas por ganchos. Via o sangue de suas coxas cortadas e esticadas cair da mesa para o chão e misturar-se à poeira.

Desde o início da sessão de tortura só ouvira o nome dele, e mais nenhuma explicação. Já estava a chorar procurando motivos quando a voz rouca de Kurt fez-se presente assustando-o "Você foi um garoto muito mau Robben", em outra ocasião riria daquilo pensou " Você caiu na tentação do vicio Robben... E ninguém precisa de um tipo como o seu sujando o mundo" explicou intimidador olhando fundo em seus olhos.

Apontou-lhe um cano fino de metal aos seus dedos provocando-lhe choques, acabando por soltar outro grito surpreso. E assim ficou até Kurt ver os dedos escuros e com bolhas e seus olhos inchados quase fecharem-se "Não Robben! Não durma na melhor parte garoto!" o despertou novamente com diversos choques ainda mais fortes pelo corpo. Parou, analisou o local, buscou mais um cano idêntico e o ligou na caixa escura no chão de alta tensão.

Agora o sofrimento de Robben era duplicado, e enquanto os choques o atingiam no abdômen o outro cano distribuía por suas pernas abertas, "Acorde Robben! Acorde! Vamos brincar juntos!" Kurt ignorava o sangue que escorria delas e aproveitava os pinos achatados e compridos para embrenhá-los na região para Robben melhor sentir.

O desmaio que atingiu Robben foi inevitável. E o silencio imperou pela sala por muito tempo até ser quebrado por um pedido de Robben: "Pare, por favor!", que não foi atendido pelo alemão.

O barulho das correntes sendo esticadas sobre as grades e a dor que golpeava o corpo de Robben. Kurt atava as cordas amarradas às correntes metros longe do garoto, em marteladas decididas na parede direita esticando sua pele ao máximo fazendo com que ela descolasse da gordura que protegia. E dessa vez só restava ao jovem gritar insano. Kurt foi até o lado oposto, fazendo o mesmo com as outras cordas, esticando-lhe as pernas ao máximo, fazendo-as separarem-se epicamente do corpo assustado e trêmulo que caiu como um pêndulo a pintar de carmesim a mesa e o chão ainda gritando em pavor. Kurt só apreciava o terror tomar conta do ser mutilado a sua frente. E agonizando em dor Robben desmaiou deixando sua alma correr solta daquele inferno terreno.

sábado, 17 de julho de 2010

Círculo vicioso

A segunda-feira de madrugada foi caótica. Mas logo de manhã cedi ao desejo do remédio em que estou praticamente viciada graças ao meu psiquiatra. E toda dor dissolveu-se calma, quase doce de mim.

Isso se chama abstinência. Já é a segunda vez que isso acontece. Da primeira foi a tontura e a dor que se apossou de mim; mas era mais leve. Tenho medo é de quando eu parar definitivamente, se essas dores irão persistir até todos os compostos da droga saírem de meu organismo.

Mas com a vinda e ida da dor, estou mais inspirada e escrever já não está sendo uma árdua tarefa digna de lamentações e afins. A dor me inspira, abre uma porta até então fechada me meu cérebro. Com a dor posso até sofrer, mas realmente há males que bem para o bem.

Quando eu escrevia arduamente, não tomava remédio logo que a dor aparecia, pois tudo rende, desdobra-se em detalhes e sensações, antes imperceptíveis.

Meu amor e ódio se direcionam a dor, que me acompanha e me entende.

13-jul-10 às 23 h e 06 min.

Alívio!

Hoje, por volta das 6 h 30 min. da manhã, após eu tomar o remédio do meu tratamento há dois anos, a dor se foi, dissolvendo em um sono tranqüilo, agradecido após minha noite insone. Mas agora, essa dor voltou, vibrante e sublime sobre minhas têmporas. Sinto-me viciada e escrava de psiquiatras e psicólogos com esses tratamentos que me deixam em fúria! Ano passado tive tonturas e fortes dores por não tomar o mesmo remédio.

Sentiria-me melhor se não me sentisse tão paranóica de uns tempos pra cá. Creio que é esse remédio... pontos escuros nas paredes me atraem, como se estivessem a se mexer e me perseguir. Como panos no chão, que insistem em movimentar-se no chão. Ou então extraterrestres a invadir o planeta e entrar em minha janela.

Por consequência nem fui à aula. Pois minha mãe ligou e explicou toda minha agitação em dor. A prova? Eu e uma leva faremos outro dia.

Meu pai foi buscar o remédio, ah! Não vejo a hora da dor dissolver-se novamente.

12-jul-10 às 13 h 10 min.

Torrencial

Nem vi as horas passar, agora nem vi. Mas quando não aguento mais, presa àquela sala cheia de corpos em movimentos frenéticos e suas gargantas a me irritar e provocar-me a tão conhecida dor de cabeça, as horas não passam, traiçoeiras.

Quero que segunda-feira chegue e não quero que segunda-feira chegue; mas já chegou, e agora vejo-me presa em um beco sem saída. Ou melhor, há saída, só que não quero enfrentá-la. A tal prova é no último período então nem que uma enxaqueca caia sobre mim poderei arrastar os pés até uma cama de um quarto frio e escuro. Mas isso já aconteceu tantas vezes, que nem me assusto tanto. Só rio do pavor alheio que toma os corpos nesta hora calmas e trêmulos a minha volta.

Deitar-me-ei a esperar que a dor passe e a chuva torrencial continue a avançar sobre o céu da cidade, e desabe alagando as ruas. Na melhor das hipóteses, só adiarei mais um dia.

Já li muitas coisas que não dizem respeito ao que preciso.

12-jul-10 às 04 h 13 min.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Oscilante

Ora clareia, ora escurece a mente por brincadeira. Minha dor oscila como se estivesse a brincar de pique-esconde em meu cérebro. Durante uns minutos me vi livre dela, então o sono pesou meus olhos docemente, mas o sono não veio e então a dor re-apareceu magnífica a me descabelar. A cozinha me chama para um café e uma faca.

12-jul-2010 às 01 h 57 min.

Hoje a dor voltou... arteira como sempre! Abrindo minhas têmporas com afinco. Descobri que o frio a faz piorar e proliferar-se por minha cabeça e membros. Pois é, a dor apoderou-se de minha perna esquerda como um se peso morto estivesse sendo carregado nela.

Dor.

Um diário só para ela... como não vou amá-la?

16-jul-2010 às 12h 50 min.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

The invisible wall

Neste momento a dor me domina e o sono me atinge. Não sei a qual ceder, mas sei que da dor não me livrarei.

Durante essa semana ela esteve presente, e agora que caio em alucinações e vidas alheias, meu cérebro dói ainda mais, não querendo ou querendo – não sei – aceitar este conteúdo incompreensível que fabrico há tantos anos.

É esse mundo paralelo em que vivo que me irrita – há tanto tempo. Não consigo viver toda a realidade do momento sem criar uma nova hipótese ou visão de cada situação. E então, quando me deparo com a realidade me assusto e dou-me ao desespero, onde prevalece a dor, que vem me acompanhando constantemente: no meio ou fim da aula, antes e depois do almoço, a tarde, a noite, quando acordo... ela sempre aparece no final das contas. Quanto mais eu penso, ou imagino vivendo outras realidades, a dor me lembra dessa realidade cretina que me cerca.

Romance. Isso define onde vivo. O universo paralelo e estritamente contrastante que me domina.

Não adianta falar com aqueles médicos que nunca me escutam e querem sempre analisar meu exterior, me enchendo de remédios e reflexões baratas, não adianta! Eles me dizem que isso é normal... mas é tão normal a ponto de me fazer excluir da droga de sociedade que me exige desenvoltura e extrovertida? Ah meu Deus, como é dificil, ainda mais saber que toda essa torrente não tem controle e que eu sei que não posso fazer sozinha e que, se eu contar – como já fiz – acham que de vez em quando é bom extrapolar a realidade, mas viver assim sem tréguas me enoja, por saber que isso é a qualquer hora, em qualquer lugar.

Ouvir vozes, conversar, vestir, caminhar, morar em diversos lugares quando se está até conversando com as pessoas. Sinto-me traída por mim mesma. Como posso ser tão obtusa?

Minhas hipóteses já se esgotam, então penso em esquizofrenia e doenças do tipo. E tudo isso porque quero que essa dor pare – 5 horas nesta batalha.. Não há remédios que me salvem ou me tirem essa dor. Há 30 minutos tomei o segundo remédio e nada de alivio, pelo menos isso...!

Há vezes também que para aliviar a dor de cabeça, ou a que me aperta o coração sempre que me sinto só, abrir outro corte aqui ou ali é tão válido quanto expressar. Ver o sangue me leva a crer que pelo menos, naquele momento a dor também está se esvaindo de mim. Pena que agora, não há nada aqui que possa realmente me aliviar.

Sinto meus olhos pesarem, então deixo o sono me atingir, mesmo que a dor continue e me faça cair em cinzas profundas.

12-jul-2010 às 23 h 53 min.

15-jul-2010 às 11 h 20 min.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

The Pain is temporary. The pain is forever.

The pain is temporary.

Que mentira. Acabo de sentir uma pontada dela aqui, no peito, mostrando estar ativa e reinante. Li isso em uma placa em um filme quase B de tão ridículo. A não ser aqueles socos e chutes gratuitos, sangue jorrando do nariz ou bochecha... ver outras pessoas sentindo dor é compensador. Será que para elas, a dor também é temporária?

The pain is forever.

Nesse momento, um presidiário idoso cai numa emboscada por estar "trabalhando" para outro presidiário durão e simpático. Para ele, a dor é temporária. Pois ele acaba de explodir, inteiro. Mas quem fez a bomba cai na sua própria emboscada em busca de uma prisão melhor: a dor dele é para sempre. Mas nele vejo uma semelhança. Será que cairei em minha própria armadilha tentando sair dessa prisão interna, que não me deixa sentir o ar do mundo lá fora? Sentir o mundo que invejo meus colegas viverem, livres e calmos, sabendo que esse mundo é deles. Será que cairei?

11-jul-10 às 00 h 26 min.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Explosão

Minha cabeça podia explodir, com tudo o que tem dentro que seria tão inutilizável quanto pétalas de rosa secas ao chão. Afinal, não preciso dela. Não preciso de coisas inutilizáveis. Quero o contrário, quero coisas novas. Não daria para trocar? Como se troca a roupa que ganhou de presente e não serviu em uma loja qualquer? Uma roupa que não me serve é tão inútil pra mim, quanto uma cabeça cheia de coisas desprezíveis que não me levam a lugar algum.

Olhando as pétalas secas, penso se não há um fim mais digno a elas, que enfeitaram essa sala, tão branca, marrom, azul e bordô que me encontro. Perfume, sabonete talvez? Dissolver-se é tão mais calmo que explodir. É tão pacífico que nem dá vontade de se despedir. Mas minha cabeça dói, fervilhando seu conteúdo questionador que tanto me aflige. Prefiro então, dissolve-la, calma e lentamente por um ralo qualquer.

10-jul-10 às 23 h 55 min